Três políticos ucranianos defenderam publicamente negociações com a Rússia para encerrar a guerra, que completa mais de quatro anos. Pesquisa do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev (KIIS) mostra que 75% da população apoia conversas de paz, mas rejeita a entrega de territórios. O presidente Volodimir Zelenski reagiu, alertando contra o pânico.
O deputado Oleksij Hontcharenko, do partido Solidariedade Europeia, escreveu nas redes sociais que a Ucrânia está perdendo a guerra e não tem recursos para financiar o conflito. Ele propõe negociar temas como a neutralidade do país e a renúncia à adesão à Otan. “Morrer com todo o país em nome da entrada na Otan, na minha opinião, é um absurdo”, afirmou.
Danylo Hetmantsev, do partido governista Servo do Povo e presidente do Comitê de Finanças do Parlamento, defendeu que “a prioridade máxima deve ser o avanço das negociações e da paz” e sugeriu um referendo sobre os termos de um acordo. O prefeito de Kharkiv, Ihor Terekhov, criticou a ideia de que a guerra não tenha alternativa, mas condicionou a paz à capacidade de defesa do país.
Zelenski respondeu de imediato, lembrando os parlamentares de sua responsabilidade com a unidade interna. “Por mais difícil que seja para nós, não podemos nos curvar a Putin e à Rússia, porque isso destruiria a Ucrânia”, declarou. A legenda Solidariedade Europeia expulsou Hontcharenko de sua bancada, afirmando que suas posições divergem dos princípios do partido.
O cientista político Oleksij Haran, da Universidade Nacional da Academia de Kiev-Mohyla, disse à DW que o momento dos apelos não é coincidência. “Um inverno difícil está por vir, a população está exausta e todos falam de negociações”, afirmou. Ele não descarta que as declarações funcionem como “balões de ensaio” para medir a reação da sociedade, com olho em futuras eleições.
O analista Ihor Tchalenko, do Centro Ucraniano de Análise e Estratégias, relaciona as manifestações a possíveis negociações em Abu Dhabi, que discutiriam cessar-fogo setorial e o plano de paz de Trump. Segundo ele, o movimento busca atrair a Rússia para a mesa e testar a aceitação de concessões pela opinião pública.
A pesquisa do KIIS, realizada em meados de setembro, mostra que 69% apoiariam um cessar-fogo imediato na linha de frente atual, desde que os territórios ocupados não fossem reconhecidos como russos. A parcela com convicção absoluta na vitória caiu de 60% para 47% desde o fim de julho. Para Anton Hrushetskyi, do KIIS, as declarações dos políticos não refletem a posição da maioria da população.


