A consulta médica vive uma transformação com a chegada de prontuários eletrônicos, prescrições digitais, inteligência artificial (IA) e telemedicina. A promessa é reduzir a burocracia e agilizar o atendimento, mas o desafio é preservar a relação entre médicos e pacientes, que não pode ser automatizada. A tecnologia já faz parte da rotina de profissionais e pacientes no Brasil e no exterior.
A professora aposentada Denise Juncá, de 73 anos, usou o atendimento on-line do seguro-saúde durante uma viagem aos Estados Unidos em julho. Com sinusite, otite e inflamação no olho, o médico conversou por telefone, pediu uma foto e enviou a receita à farmácia. A experiência foi prática, mas ela prefere a consulta presencial. “A tecnologia facilita muita coisa. Você não precisa se deslocar e perder tempo no trânsito. Mas eu ainda acho que nada substitui o cara a cara”, diz.
Ronaldo Gismondi, diretor médico de Produtos Digitais da Afya e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), lembra que, antes dos prontuários eletrônicos, usava marcações em vermelho e verde no papel para destacar informações importantes. Com os sistemas digitais, ficou mais fácil acompanhar a evolução clínica e retomar questões pendentes, principalmente quando o paciente demora a voltar. “Você às vezes atende uma pessoa uma vez por ano, e é difícil lembrar de todo mundo”, afirma.
No Grupo Samel, em Manaus, a médica Emilyn Guerreiro usa uma ferramenta integrada ao prontuário eletrônico. O sistema organiza informações clínicas, mas ela ressalta que a tecnologia não substitui seu julgamento. “Sobrou tempo para eu fazer o que só o humano é capaz de fazer: o olho no olho, um exame físico adequado, a empatia de ouvir e escutar melhor o meu paciente, e deixar a parte burocrática mesmo para uma máquina realizar”, afirma.
Um estudo publicado há cerca de uma década na revista americana Annals of Internal Medicine, que acompanhou 57 médicos durante 430 horas de trabalho, mostrou que eles dedicavam 27% do dia ao contato direto com pacientes, enquanto 49,2% eram destinados a prontuários eletrônicos e outras atividades de mesa. Na sala de exame, 37% do tempo era gasto diante do computador, contra 52,9% em contato clínico direto.
Na The Permanente Medical Group, ligada à Kaiser Permanente, 7.260 médicos usaram uma ferramenta de IA em cerca de 2,58 milhões de consultas entre outubro de 2023 e dezembro de 2024. O recurso gerou rascunhos de registros clínicos e economizou quase 16 mil horas de trabalho. Em pesquisa com 118 pacientes, 47% disseram que o médico passou menos tempo olhando para a tela, e 39% perceberam mais conversa direta. Entre 102 médicos, 84% relataram impacto positivo na interação.
A experiência de Julia Costa, de 30 anos, formada em relações públicas e moradora de São Paulo, ilustra o dilema do registro. Em uma consulta de rotina com um ginecologista no fim do ano passado, o médico não fez anotações durante a conversa e avisou que precisaria perguntar tudo novamente no retorno. “Ouvir que precisaria repetir tudo me desanimou. Tanto que não voltei”, diz.
No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), Raphael Marcon, chefe do grupo de coluna do Instituto de Ortopedia, afirma que a meta é chegar a 30% dos atendimentos por telemedicina. “Muitos pacientes vêm de longe ao hospital apenas para conseguir um pedido de exame ou uma receita. Com a telemedicina e a receita digital, conseguimos resolver essas demandas sem que eles precisem se deslocar”, afirma.


