As grandes empresas de inteligência artificial (IA) estão tomando empréstimos na casa das centenas de bilhões de dólares, uma onda que contribui para a alta das taxas de juros e para o nervosismo dos investidores. O setor emitiu cerca de US$ 500 bilhões (R$ 2,49 trilhões) em dívida nos primeiros nove meses de 2026, segundo levantamento citado pela agência AFP.
O valor é quase o dobro do registrado em 2024. Os recursos estão sendo usados para financiar chips, servidores e data centers que formam o ecossistema da IA, já que os fluxos de caixa gerados por gigantes como Google, Meta, Amazon e Microsoft não são mais suficientes.
O Goldman Sachs prevê um novo aumento na emissão de dívida do setor em 2027, chegando a US$ 1,2 trilhão (R$ 5,98 trilhões). “Em termos de crescimento, é algo que nunca vimos”, afirma Chris Della Fave, da consultoria de captação de recursos Post Oak, que estima em 25% a participação da IA no total de emissões de títulos privados, ante 4% há dois anos.
Neste ano, o ecossistema da IA terá tomado mais empréstimos do que as operadoras de cabo dos EUA durante o boom da internet ou do que as companhias ferroviárias na explosão do setor no país, em valores ajustados pela inflação.
Até agora, o mercado de títulos absorve esse fluxo sem sobressaltos, mas os emissores tiveram de pagar o preço. Mesmo grandes nomes como a Meta precisaram oferecer mais de 7% ao ano de juros, enquanto especialistas em data centers foram além de 9%.
“Estão sendo emitidos mais títulos. Os investidores têm que absorver mais, o que significa que quem se endivida precisa oferecer retornos mais altos”, explica Della Fave. E todo o mercado é afetado. “Alguém que teria comprado um título do Tesouro pode decidir comprar dívida da Microsoft”, analisa Mark Malek, responsável por investimentos na Siebert Financial. “Isso coloca as taxas sob pressão.”
A taxa dos títulos do Tesouro americano de 10 anos, referência em Wall Street, está em torno de 5,30%, seu nível mais alto desde 2002. O movimento é reforçado pela inflação, alimentada pela guerra contra o Irã e pelo nível elevado dos preços da energia.
No fim de setembro, o Banco da Inglaterra apontou um “risco de correção mais acentuado” do que em julho. A Oracle, com dívida massiva de US$ 125 bilhões (R$ 623 bilhões) e caixa que se corrói a cada trimestre, é vista como um indicador antecedente. “Se a Oracle tiver um problema, se não conseguir pagar um vencimento de dívida, isso poderá provocar um efeito de contágio”, alerta Malek.


