O dono da MCK Reformas e Construções afirmou em depoimento à Polícia Civil que foi alvo de um esquema de desvio de verbas em reformas de escolas estaduais do Rio de Janeiro. Marcos José Mendes Ferreira disse que repassou R$ 4 milhões a um intermediário, após ser abordado com R$ 500 mil em uma sacola plástica.
Marcos José Mendes Ferreira, dono da MCK Reformas e Construções, prestou depoimento à Polícia Civil em 16 de janeiro, horas depois de ser abordado com R$ 500 mil numa sacola plástica ao sair de uma agência bancária em Duque de Caxias. O relato integra o pedido de busca e apreensão enviado pelo procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, ao Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio.
Segundo o empresário, ele conheceu Fábio Martins Pereira numa igreja em Duque de Caxias no fim de 2024. Fábio lhe perguntou se queria participar de licitações. Marcos entregou a documentação da empresa e, pouco mais de um mês, soube que tinha vencido uma concorrência para reformar o Colégio Estadual Baltazar Bernardino, em Niterói. Ele não tinha feito proposta nem orçamento.
Marcos orçou a reforma completa em R$ 720 mil. Fábio então explicou que ele tinha ganhado por um valor maior e que, quando o dinheiro caísse na conta, a diferença deveria ser repassada a ele. A MCK acabou contratada para cerca de 15 obras em escolas estaduais, somando aproximadamente R$ 6 milhões. Pelas contas de Marcos, R$ 2 milhões foram gastos nas obras e R$ 4 milhões ficaram com Fábio.
Os levantamentos da polícia e dos promotores chegaram a valores mais elevados. Somados os processos de contratação encontrados em fontes abertas e os enviados depois pela Secretaria estadual de Educação, a MCK recebeu R$ 19,8 milhões em 2025. Um relatório do Comitê de Inteligência Financeira da Polícia Civil calculou que, dos R$ 11,8 milhões de dinheiro público que entraram nas contas da empresa naquele ano, 82,9% foram sacados em espécie.
As contratações passavam pelas Associações de Apoio às Escolas, entidades privadas ligadas a cada unidade da rede. Nos casos da MCK, havia contratos acima de R$ 2 milhões cada. A polícia encontrou o mesmo padrão em quase todos: a MCK vencia porque as outras empresas eram desclassificadas por não entregarem documentos. Para os investigadores, isso é “forte indício de conluio prévio”.
Parte do dinheiro seguia outro caminho. Entre janeiro e agosto de 2025, a MCK transferiu R$ 1,8 milhão para a Virtual Rio Construtora, de Fábio, que tem capital social de R$ 10 mil. A Virtual Rio sacou cerca de 86,7% do que recebeu. Em agosto daquele ano, comprou oito casas em Duque de Caxias por R$ 400 mil.
O caso passou para a coordenadoria que investiga autoridades com foro por ligações com a ex-secretária de Educação Roberta Oliveira. Para o MP, “o destino final dos valores desviados” eram pessoas ligadas diretamente à ex-secretária. Todas as notas de empenho dos repasses que pagaram a MCK foram assinadas por ela.

