O atual El Niño, de intensidade excepcional, representa uma ameaça “aterrorizante” para os recifes de coral do mundo, afirmou David Obura, presidente do grupo de especialistas em biodiversidade apoiado pela ONU. Estudo que ele coordenou, publicado na revista Nature, mostra que quase metade das espécies de corais estava em risco elevado de extinção em 2020.
A pesquisa, divulgada na quinta-feira (1), avaliou o estado de saúde dos corais construtores de recifes e concluiu que a deterioração é grave desde o último relatório mundial, de 2008. “Nossos resultados mostram que, em 2020, quase metade de todas as espécies de corais estavam em risco elevado de extinção”, diz o estudo, elaborado por dezenas de pesquisadores.
Obura, cientista queniano que preside a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), explicou que o levantamento usa apenas informações divulgadas até 2020. Desde então, as temperaturas dos oceanos atingiram níveis recorde, com o impacto adicional do El Niño atual, declarado em junho e que pode se tornar o mais intenso já registrado.
O fenômeno natural eleva a temperatura da superfície do Oceano Pacífico e altera padrões de ventos e precipitações no planeta, amplificando os efeitos da mudança climática provocada pelos seres humanos. Para Obura, isso acrescenta “um nível adicional de risco aterrorizante”.
Ele lembra as consequências devastadoras do “super El Niño” de 1997-1998 e teme que o episódio atual, ainda mais intenso, leve a uma reavaliação que mostre mais de 50% das espécies em risco elevado de extinção. “É completamente possível”, disse.
Os corais já morrem em larga escala, com colapso observado por cientistas nos trópicos. Em oceanos mais quentes, eles expulsam os microrganismos que lhes dão cores vibrantes e alimento, sofrem branqueamento e acabam morrendo de fome. Os recifes funcionam como barreiras contra a erosão e reservas de biodiversidade, além de armazenar carbono.


