Os Estados Unidos reconheceram pela primeira vez publicamente que possuem armas posicionadas em órbita, confirmando capacidade militar que escancara uma lacuna no direito internacional. A declaração foi feita pelo secretário da Força Aérea americana, Troy Meink, durante a conferência Air, Space & Cyber, em Maryland. O governo não revelou quais são as armas, quantas estão em órbita, como funcionam ou quando foram lançadas.
Segundo Meink, os EUA agora possuem “armas de controle espacial em órbita” capazes de defender forças americanas de ações de adversários. A declaração não esclareceu se os equipamentos foram projetados exclusivamente para atingir ou neutralizar outros objetos no espaço.
A falta de detalhes não é exclusividade americana. Rússia, China e outras potências mantêm grande parte de suas capacidades militares espaciais sob sigilo, o que dificulta a especialistas determinar se um satélite tem finalidade civil, militar ou ambas.
Uma arma espacial não precisa ser uma bomba ou míssil em órbita. Entre as tecnologias capazes de interferir ou destruir sistemas espaciais estão mísseis antissatélite lançados da Terra, equipamentos de interferência de sinais, lasers, micro-ondas de alta potência, ataques cibernéticos e satélites capazes de se aproximar de equipamentos adversários. Victoria Samson, diretora de segurança e estabilidade espacial da Secure World Foundation, disse à Associated Press que um satélite pode se aproximar de outro para reabastecê-lo, mas também para lançar objetos contra ele ou interferir em seus sinais — o chamado problema das tecnologias de “uso duplo”.
O Tratado do Espaço Exterior, de 1967, proíbe armas nucleares em órbita e determina que a Lua e outros corpos celestes sejam usados para fins pacíficos. Mas não estabelece proibição geral para armas convencionais na órbita da Terra. Jessica West, pesquisadora do Project Ploughshares, disse à AP que a estrutura jurídica que governa atividades espaciais precisa ser “fundamentalmente modificada”. Os países, porém, não chegaram a consenso sobre o que define uma arma espacial.
Os EUA justificam a ampliação de capacidades citando avanços de Rússia e China. Washington já acusou Moscou de desenvolver arma antissatélite baseada no espaço, e Pequim desenvolveu capacidades para atacar ou neutralizar satélites. Rússia e China criticaram a confirmação americana e alertaram para risco de escalada. Relatório de 2026 da Secure World Foundation analisa tecnologias de 13 países.
Em 2021, um teste russo de míssil antissatélite produziu mais de 1.500 fragmentos rastreáveis. O professor de direito internacional Steven Freeland alerta para o efeito cascata: uma colisão produz destroços que provocam novas colisões. Em situação extrema, órbitas poderiam se tornar perigosas para satélites e missões espaciais.
Segundo a Reuters, nenhum país realizou ataque contra satélite de outro durante conflito. Mas a confirmação americana representa mudança importante porque Washington abandonou parte da ambiguidade sobre suas capacidades ofensivas ou defensivas em órbita. Mais de meio século após o tratado de 1967, armas nucleares continuam proibidas em órbita, mas não há proibição abrangente para armas convencionais.

