A Feira do Livro de Frankfurt, que termina neste domingo (11/10) na Alemanha, tem como um dos temas centrais a dificuldade de identificar quando um texto foi escrito com ajuda de inteligência artificial. A discussão ganhou urgência após o escândalo envolvendo o autor haitiano-canadense Thélyson Orélien, acusado de ter escrito seu romance de estreia quase inteiramente com IA.
O livro de Orélien, C’était ça ou mourir (Era isso ou morrer, na tradução livre), foi publicado na primavera canadense e chegou à França no fim do verão. A obra, que narra uma história de migração, recebeu elogios quase unânimes, teve os direitos vendidos para mais de 20 idiomas e chegou à lista preliminar do Prêmio Goncourt.
Pouco depois, surgiram acusações de que o livro teria sido escrito quase inteiramente por IA. De um dia para o outro, Orélien passou de revelação literária a suposto fraudador, embora negue todas as acusações. Sua indicação ao Goncourt foi retirada.
“Teremos de aprender a conviver com a dúvida”, afirma Hannes Bajohr, professor de literatura alemã na Universidade da Califórnia em Berkeley. Há anos ele pesquisa como a IA está mudando não apenas a escrita, mas também a leitura. Sua previsão é que, se a origem dos textos não puder mais ser determinada com segurança, as obras passarão a ser avaliadas pela qualidade do texto em si.
A escritora best-seller Nina George, presidente honorária do Conselho Europeu de Escritores, discorda dessa visão. Durante a feira, ela recebeu o Prêmio Friedrich Perthes por seu engajamento em temas como IA e direitos autorais. George já discursou no Parlamento Europeu e no Parlamento alemão sobre os riscos associados aos modelos de IA. Na sua avaliação, é perverso exigir que autores tenham de provar que seus textos foram escritos por seres humanos.
Para ela, a questão central continua sendo a postura das grandes empresas de tecnologia, que utilizam obras protegidas por direitos autorais para treinar seus sistemas, e a necessidade de fortalecer a proteção legal dos criadores.
Na abertura da feira, a Associação Alemã do Comércio Livreiro lançou um novo apelo aos governos da Alemanha e da União Europeia para que reforcem a regulamentação da IA. O documento já foi assinado por 140 editoras.

