O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) prometeu criar o Ministério da Prosperidade caso vença o segundo turno contra Lula (PT). A proposta, apresentada no dia 9 de outubro, prevê reunir em uma mesma pasta políticas de assistência social, qualificação profissional e microcrédito. O nome escolhido aciona uma gramática religiosa que aproxima fé e empreendedorismo.
A ideia foi apresentada cinco dias após o primeiro turno e não consta no plano de governo registrado por Flávio no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Para esse governo [de Lula], Bolsa Família é o máximo. Para mim, é só o começo. Eu vou criar o Ministério da Prosperidade”, disse o candidato.
Em nota à reportagem, a campanha afirma que a ideia é “integrar proteção social e mobilidade social”, articulando programas como o Bolsa Família a políticas de qualificação profissional, incentivo ao empreendedorismo e acesso ao crédito. “O objetivo é garantir proteção a quem precisa e, ao mesmo tempo, criar caminhos para que mais brasileiros conquistem autonomia financeira, prosperem e construam seu próprio patrimônio”, diz o texto.
O nome da pasta remete à Teologia da Prosperidade, linha que ensina que Deus deseja conceder aos fiéis saúde, sucesso e abundância material já nesta vida. Yago Martins, pastor batista e autor de “Você É o Ponto Fraco de Deus e Outras Mentiras da Teologia do Coaching”, afirma que a integração das áreas é defensável, mas critica a “embalagem política” da ideia. “Prosperidade virou uma espécie de palavra mágica, que promete resolver problemas estruturais por meio de uma mudança de mentalidade”, diz.
A economista Deborah Bizarria, presbiteriana, aponta a prosperidade como um “léxico comum crente”. Para ela, o aceno do candidato do PL aos evangélicos acontece “principalmente por trocar o ‘desenvolvimento social’, algo que pode soar como de esquerda para o público do Flávio”.
O ex-adversário Renan Santos (Missão) criticou a fusão de ministérios sem a apresentação de políticas públicas concretas e classificou a ideia como “tirada obviamente da cabeça do Pablo Marçal”, com “discurso de coach malandro”. Marçal, citado como possível ministro caso Flávio se eleja, não quis falar com a reportagem.
Teólogos identificam na proposta uma mutação da Teologia da Prosperidade, a chamada Teologia Coaching. “Deus aparece como uma espécie de facilitador dos projetos individuais”, afirma Yago Martins. Ranieri Costa, teólogo e pastor batista, vê uma “evolução hipermoderna” do pacote teológico. “Se o sujeito não conseguir alcançar a prosperidade que esse ministério diz que deseja oferecer, não vai poder cobrar do político, porque no final das contas quem não consegue prosperar dentro dessa lógica é o próprio culpado”, diz.


