As projeções de inflação subiram pela quarta semana consecutiva no Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira (12), passando de 5,01% para 5,22%. Apesar disso, a estimativa para a Selic caiu de 13,50% para 13,25%, com a taxa básica de juros atualmente em 13,75% ao ano. O relatório é o primeiro após o primeiro turno das eleições de 2026.
A revisão reflete principalmente a incorporação do IPCA de setembro, que veio acima do esperado, com alta de 0,82%, segundo Andre Braz, economista do FGV Ibre. Ele explica que os preços da energia elétrica pressionaram o índice, com o fim do desconto temporário de Itaipu, mas também houve pressão de alimentos, combustíveis e passagens aéreas.
— Quando a inflação de um mês surpreende para cima, a projeção do ano aumenta, mesmo que as estimativas dos meses seguintes permaneçam iguais. Por isso, a revisão não significa que os preços passarão a subir no ritmo de setembro. Parte da pressão da energia foi pontual, embora o retorno da alta dos alimentos mereça atenção — afirmou Braz.
A expectativa para 2027 permaneceu em 4,3%, o que sugere uma revisão mais concentrada no fechamento deste ano. André Valério, economista do Inter, acrescenta que, além da inflação de setembro acima do esperado, há o fator da sazonalidade de alta do IPCA. Segundo ele, desde 2010, as medianas dos meses de outubro, novembro e dezembro são 0,50%, 0,51% e 0,62%, respectivamente, muito por conta de altas nos alimentos, que devem se manter pressionados até o final do ano.
— Se assumirmos que a inflação irá convergir para essa mediana nas próximas três leituras, o IPCA fecharia 2026 com alta acumulada de 5,66%. Nossa expectativa de momento é que o IPCA encerre 2026 por volta de 5,30% — projetou Valério.
O economista do Inter diz ainda que os resultados da disputa presidencial explicam o arrefecimento das expectativas para os juros, a despeito da alta nas projeções de inflação. Com o desempenho de Flávio acima do projetado pelas pesquisas, a probabilidade da sua vitória aumentou. A expectativa que um eventual governo Bolsonaro entregue uma política fiscal mais austera do que a do atual governo levou a uma reprecificação forte da curva de juros, segundo ele.
Valério lembra que a alta de setembro foi focada nos grupos de habitação, alimentação e bebidas e transportes, amplamente influenciados por fatores de oferta. Sem sinais claros de aceleração pela demanda, não haveria urgência de uma resposta da política monetária, o que contribui para a queda nas projeções de juros. O horizonte relevante da política monetária é o 2º trimestre de 2028, de forma que haveria tempo suficiente para a reversão desses choques.
— O Banco Central ficará atento na capacidade desses choques de oferta contaminarem o restante dos preços. Um requerimento para tanto seria uma demanda aquecida, o que não parece ser o caso, nesse momento. Os dados de consumo e endividamento indicam que os consumidores têm pouco renda disponível, enquanto a atividade dá sinais cada vez mais claros de moderação — concluiu.
As expectativas do Focus para o PIB se mantiveram estáveis, em 1,85% para 2026 e 1,40% para 2027. Esses números são inferiores aos projetados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que estimou crescimento de 2,2% para o Brasil em 2026 e 1,9% no fim do ano que vem, no relatório Panorama Econômico Mundial (WEO, na sigla em inglês) de outubro.

