A decisão do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), que pede acesso integral a investigações conduzidas por Alexandre de Moraes provocou incômodo entre integrantes da Corte. Nos bastidores, a avaliação é de que o movimento pode abrir caminho para futuros questionamentos sobre a validade de decisões tomadas por Moraes na ação da trama golpista, que resultou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Integrantes da Corte avaliam que a iniciativa de Fux ultrapassa a discussão sobre a regularidade dos procedimentos investigativos e abre nova frente de contestação a decisões já tomadas pelo Supremo. Embora o ministro ainda não tenha se pronunciado sobre o mérito da ação, a determinação foi interpretada como sinal de que ele pretende examinar a atuação de Moraes em investigações que serviram de base para o processo da tentativa de golpe de Estado.
Mesmo que a iniciativa não resulte na anulação de atos praticados durante a investigação da trama golpista, ela poderá fornecer elementos para embasar, no futuro, um eventual pedido de impeachment de Moraes, bandeira eleitoral de parte da bancada eleita ao Senado no último domingo.
Na terça-feira, Moraes teve um encontro com o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e os diretores da Divisão de Crime Organizado (Dicor), Dennis Cali, e o diretor de inteligência, Leandro Almada. A reunião, revelada pela imprensa, ocorreu no gabinete de Moraes, mas não havia sido publicizada nem pelo STF nem pela PF.
O encontro aprofundou a desconfiança entre os integrantes da Corte, que estão divididos entre uma ala pró-Moraes e outra pró-André Mendonça, relator do caso Master na Corte. Fux tem se alinhado em votações ao segundo grupo. A reunião também foi vista com ressalvas por integrantes da corporação.
O delegado da PF Edvandir Paiva, presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), afirmou que a associação “espera uma postura estritamente republicana, técnica e isenta da Polícia Federal durante todo este período eleitoral”. “Estamos falando de uma instituição de Estado, com 82 anos, que jamais pode deixar que prospere qualquer tipo de dúvida sobre sua atuação”, disse ele, em nota.
A reunião entre Moraes e a cúpula da PF ocorreu uma semana depois de o presidente do STF, Edson Fachin, enviar um ofício a Andrei no qual defende a apuração de eventuais fatos envolvendo integrantes da Corte no inquérito do Banco Master. No documento, Fachin citou o agendamento de uma audiência com Andrei, que já teria sido combinada entre os dois, sem informar data nem horário.

