O governo Lula acelerou, após o primeiro turno, um pacote de medidas fiscais e a aprovação do fim da escala 6×1 no Senado, em uma estratégia vista como eleitoreira. Especialistas alertam que a expansão de gastos, sem fonte de compensação, eleva o risco de descontrole fiscal e compromete o superávit projetado para 2027.
A poucos dias do segundo turno, o governo transformou o Orçamento e a legislação em instrumentos de campanha. Não se trata de ajustes debatidos com antecedência, mas de benefícios, renúncias e mudanças aceleradas depois do susto diante da avalanche conservadora vista nas urnas.
O pacote inclui reajuste no Bolsa Família, perdão de dívidas, Pix de até R$ 5 mil sem devolução, elevação do teto para empreendedores, recursos para universitários e alívios nos combustíveis. O custo entrará no orçamento de 2027, comprometendo o superávit projetado.
A maioria das medidas não estava no texto original e depende do Congresso. O discurso oficial fala em manter o arcabouço e chegar a superávit até 2030. Na prática, porém, o que se vê é expansão permanente sem fonte clara de compensação.
O caráter eleitoreiro está na cronologia. As medidas de maior apelo saíram depois do primeiro turno, quando Lula percebeu o risco real de ser apeado do poder pelo voto. O governo alega que parte das dívidas é irrecuperável ou vem de fundos específicos. Ainda assim, o timing coincide com a necessidade de recuperar terreno.
A isso se soma a aprovação acelerada do fim da escala 6×1. O Senado aprovou por 75 a 1 a redução gradual da jornada de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso e sem corte salarial. Para o analista Márcio Coimbra, a medida é absurda e vai na contramão do necessário, pois eleva o custo da hora trabalhada e resultará em menos vagas formais e menor crescimento.
A dívida já está elevada e os juros altos. Cada benefício permanente ou renúncia aumenta a pressão: juros mais altos por mais tempo, crédito mais caro, inflação mais resistente e real mais fraco. O benefício que entra agora é imediato para quem recebe. O serviço da dívida, o ajuste futuro e os custos de produção mais altos são o imposto diferido que todos pagam.
Coimbra, CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia, avalia que o risco de eleger Lula depois do tsunami conservador que chegou ao Congresso é o de instalar um pato manco no Planalto em plena crise fiscal, sem maioria, diante de um Parlamento dominado pela oposição.

