O Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo, na Zona Oeste do Rio, apresentou nos Estados Unidos um modelo de gestão participativa que aproxima moradores e profissionais de saúde em uma região marcada pela violência urbana. O projeto, implantado há mais de três anos, foi mostrado no Congresso Clínico 2026 do American College of Surgeons (ACS), em Washington.
O trabalho foi apresentado pelo médico Hélio Machado, coordenador de Cirurgia Geral do hospital, durante o congresso realizado entre 26 e 29 de setembro. A pesquisa mostra como a aproximação com lideranças comunitárias, escolas, organizações sociais e representantes religiosos pode ajudar um hospital público a compreender melhor as necessidades da população que atende.
Uma das principais ações do projeto é o treinamento de moradores para lidar com situações de emergência, especialmente em casos de ferimentos graves e hemorragias. Em três anos e meio, cerca de 3 mil pessoas, entre profissionais de saúde e moradores da região, participaram de capacitações do Stop the Bleed (Pare o Sangramento), programa do ACS voltado ao controle de sangramentos que podem colocar vidas em risco.
Além do treinamento para controle de hemorragias, o hospital desenvolve outras atividades voltadas à prevenção de acidentes e ao atendimento inicial de emergências. O projeto “Se liga, isso é trauma!” já capacitou cerca de 400 jovens em ações educativas sobre prevenção de traumas e identificação de situações de risco. Outra iniciativa é a formação em Suporte Básico de Vida (BLS), que ensina procedimentos de primeiros socorros, incluindo técnicas de reanimação cardiopulmonar. Mais de 980 pessoas já passaram por esse treinamento.
As atividades também incluem orientações sobre prevenção de acidentes e violência contra a mulher. A proposta é levar conhecimentos básicos de saúde e segurança para além dos muros do hospital, permitindo que os próprios moradores saibam como agir em situações de emergência até a chegada do atendimento especializado.
O modelo apresentado nos Estados Unidos não se limita aos treinamentos. O Albert Schweitzer também criou canais de diálogo com moradores, lideranças comunitárias e religiosas, educadores, ativistas, profissionais da assistência social e representantes do poder público. A equipe realiza um mapeamento das necessidades da região e promove encontros para discutir os serviços oferecidos pela unidade e os problemas enfrentados pela população.
Uma vez por ano, o hospital apresenta uma prestação de contas das atividades desenvolvidas. Esses encontros costumam reunir cerca de 50 participantes, que acompanham os resultados e podem apresentar demandas da comunidade. Segundo o estudo, a aproximação ajudou a alinhar as expectativas dos moradores à capacidade de atendimento da unidade. A equipe também identificou redução de pressões externas sobre os profissionais e uma percepção maior de estabilidade no ambiente de trabalho.
O trabalho apresentado em Washington recebeu o título “Do centro de trauma à referência para a comunidade: um modelo de gestão participativa em uma área urbana marcada pela violência no Brasil”. A pesquisa foi selecionada para o fórum científico do congresso, na sessão de Cirurgia Global, conforme divulgado pelo Viva Rio. “Foi uma honra apresentar nosso trabalho em um dos principais congressos de cirurgia do mundo. Poder compartilhar com colegas de diferentes países a experiência do Albert Schweitzer, em uma região marcada pela violência, mostrou que os desafios locais também fazem parte de uma conversa global”, disse Hélio Machado. O estudo tem como coautoras Kamila Conde Coelho e Graciane Cristina Silva de Carvalho.


