A inflação ao consumidor dos Estados Unidos voltou a subir 0,6% em setembro, patamar não visto desde abril, e o mercado já precifica maior chance de nova alta de juros pelo Federal Reserve ainda neste ano. A probabilidade de elevação de 0,25 ponto percentual na reunião de outubro subiu de 22,1% para 43,7%, segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group. Economistas alertam que pressões em serviços, habitação e transportes vão manter o banco central sob pressão.
O dado veio em linha com a expectativa de analistas, mas a composição preocupa. O núcleo da inflação, que exclui energia e alimentos, subiu 0,3% em setembro, acima do esperado, e acelerou pelo segundo mês consecutivo. Custos com habitação, item de maior peso no CPI, também avançaram 0,4%, repetindo o ritmo de agosto.
Leonardo Mendes, economista da Manchester Investimentos, afirma que o principal risco é a transmissão do choque energético para os demais preços. “Quando os custos de combustíveis, transporte e produção aumentam, as empresas tendem a repassar parte dessas despesas aos consumidores”, diz. A gasolina subiu 9,1% na comparação mensal e acumula alta de 34,2% em 12 meses. O óleo combustível avançou 15,3% no mês e 74,12% no ano.
Pela ferramenta FedWatch, a probabilidade de o Fed manter os juros na faixa de 3,75% a 4% na reunião de outubro caiu de 77,9% para 56,3%. Para dezembro, o mercado já precifica 38,3% de chance de os Fed Funds ficarem 0,50 ponto percentual acima do patamar atual — ontem, esse percentual era de 18,7%.
André Valério, economista sênior do Inter, lembra que o núcleo da inflação não indica desinflação. “Os custos com habitação aceleram pelo segundo mês consecutivo, impedindo a sequência de desaceleração no acumulado em 12 meses vista até julho”, afirma. Ele diz que a divulgação do PPI nesta quinta-feira permitirá calibrar as projeções para o PCE, meta oficial do Fed.
Felipe Mecchi, economista do C6 Bank, cita altas em veículos usados (0,7%), vestuário (0,3%), transportes (0,6%) e habitação (0,4%). “O núcleo dos preços de serviços acumula alta de mais de 3% em 12 meses”, destaca. O banco espera que o Fed suba os juros uma vez neste ano, provavelmente em dezembro.
Para Leonel Oliveira Matos, analista da StoneX, o resultado abre espaço para o debate sobre alta em outubro. “A divulgação do CPI aumenta as apostas em novas altas, favorece os Treasuries e fortalece o dólar globalmente, pressionando o câmbio brasileiro”, diz. Leandro Padulla, economista do ASA, afirma que a surpresa no núcleo “fortalece o argumento por uma alta em outubro”.


