O intestino deixou de ser visto apenas como órgão digestivo e passou a ser estudado como peça central na regulação do bem-estar. A relação entre o órgão e o cérebro foi tema de palestra do nutricionista Murilo Pereira, presidente da Associação Brasileira de Nutrição em Gastroenterologia (ABNG), no Congresso Internacional de Nutrição Funcional, realizado nesta quinta-feira (15).
Durante a apresentação “A ciência da felicidade e os 6 pilares do intestino saudável”, Pereira explicou que o órgão mantém comunicação permanente com o sistema nervoso por meio do eixo intestino-cérebro. Uma das principais vias é o nervo vago, que leva informações captadas no intestino até o cérebro e participa também da comunicação no sentido contrário.
O intestino é um importante órgão endócrino. Suas células produzem hormônios que regulam fome, saciedade e metabolismo, como o GLP-1. A serotonina, conhecida como hormônio do bem-estar, também está nessa conversa: cerca de 90% da produção do organismo acontece no intestino.
A microbiota, conjunto de trilhões de microrganismos que vivem no órgão, ocupa papel importante nesse circuito. As bactérias intestinais produzem metabólitos, como os ácidos graxos de cadeia curta, que participam de processos ligados ao metabolismo, à imunidade e ao sistema nervoso. O equilíbrio desse ecossistema pode influenciar respostas ao estresse.
Falar em “bactéria da felicidade” ou em um alimento capaz de produzir felicidade seria simplificar demais a relação, afirmou o nutricionista. O que existe é uma rede em que intestino, microbiota, sistema imune e cérebro trocam sinais continuamente. Em situações de desequilíbrio da microbiota, a chamada disbiose, podem ocorrer alterações metabólicas e inflamatórias.
A alimentação entra diretamente nessa história. Um padrão baseado em vegetais, frutas, fibras e comida de verdade oferece substratos para os microrganismos e favorece a diversidade da microbiota. Já a dieta ocidental, marcada pelo consumo frequente de ultraprocessados e baixa ingestão de fibras, pode alterar esse ecossistema.
“Vegetais, fibras e compostos bioativos atuam como o combustível para uma microbiota intestinal saudável e diversa”, disse Pereira. O consumo crônico de ultraprocessados favorece a disbiose e alterações na barreira intestinal, processos estudados em relação a ansiedade e depressão.
Pereira propõe seis pilares para a saúde intestinal: alimentação com comida de verdade, atividade física regular, sono de qualidade, manejo do estresse, conexões sociais saudáveis e regularidade intestinal. A questão, segundo ele, é menos sobre encontrar uma fórmula para a felicidade e mais sobre entender que o organismo funciona como uma rede.

