O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, dias após o início da guerra total entre EUA e Israel contra o país, causou o maior choque energético em décadas e expôs a fragilidade de rotas marítimas vitais para a economia global. A decisão de Teerã interrompeu a passagem de 20% das exportações mundiais de petróleo e gás.
A ação iraniana, uma promessa anterior à Revolução Islâmica de 1979, barrou os pouco mais de 130 navios que cruzavam o estreito diariamente. O objetivo era compartilhar os custos dos ataques americanos e israelenses com os vizinhos do Golfo Pérsico e o resto do mundo.
O preço do petróleo disparou, elevando a inflação e freando as previsões para o avanço da economia em 2026. Para o presidente americano, Donald Trump, o cenário adiciona um elemento de mau humor nos EUA com a guerra, inclusive entre republicanos.
Uma análise da Marinha do Brasil compartilhada com o GLOBO aponta que a superioridade naval não assegura liberdade de ação irrestrita. Uma força inferior pode explorar a vantagem geográfica de um estreito para impor custos desproporcionais a um adversário mais poderoso.
O fechamento, porém, cobrou preço do Irã. Um bloqueio naval liderado por Washington reduziu os rendimentos iranianos com petróleo e gás, e uma operação militar americana criou um corredor relativamente seguro perto da costa de Omã, elevando as exportações aos maiores níveis em meses. O professor de Ciências Militares Sandro Teixeira Moita, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), avalia que o bloqueio foi uma medida desesperada.
A cerca de dois mil km de Ormuz, o Estreito de Bab el-Mandeb, por onde transitam 12% do comércio marítimo global, é ameaçado pelos houthis, milícia que ocupa parte do Iêmen e ataca navios desde 2023. Hoje alvo de contraofensiva do governo iemenista com apoio saudita, o grupo não teria mais controle da passagem.
No Estreito de Malaca, por onde passam até 25% do comércio marítimo internacional, a disputa entre EUA e China se intensificou. Em abril, Indonésia e Estados Unidos assinaram pacto de segurança mencionando a livre passagem, e um navio da Marinha americana transitou pelo local dias depois. Pequim, que viu 21% de suas exportações passarem por ali em 2024, não viu a movimentação com bons olhos.
No Mar Negro, a retomada de ataques contra navios russos e ucranianos pode levar a uma queda de 17% nas exportações globais de grãos, segundo a Oxford Economics. Já o Canal do Panamá, alvo da ofensiva de Trump contra a presença chinesa na América Latina, viu embarcações panamenhas serem retidas pela China, enquanto uma subsidiária da CK Hutchison cobra US$ 2 bilhões em indenizações do governo local.

