Os juros dos títulos do Tesouro americano voltaram a subir nesta quarta-feira (14), depois que a inflação ao consumidor dos Estados Unidos veio acima do esperado em setembro. O rendimento do Treasury de 10 anos saltou cerca de 0,10 ponto percentual, para perto do maior nível desde 2002, a duas semanas da próxima decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano).
O movimento mexe com o bolso de quem investe em qualquer lugar do mundo. Os Treasuries são a principal referência de investimento de baixo risco do planeta. Quando o rendimento deles sobe, sobe junto o retorno que os investidores cobram para aplicar em ações, em títulos de empresas e em países emergentes como o Brasil.
A alta dos juros americanos neste ano reflete o petróleo mais caro, a economia resiliente e a forte emissão de dívida por governos e por empresas que investem em inteligência artificial (IA). A natureza do movimento faz diferença. A BlackRock separa a subida puxada pelo crescimento e pela demanda por investimentos, que considerava compatível com ativos de risco, daquela provocada por inflação persistente ou por dúvidas sobre a credibilidade dos bancos centrais, vista como mais preocupante. O dado desta quarta coloca a inflação de volta no centro dessa discussão.
Nesta semana, a BlackRock, maior gestora do mundo, abandonou a recomendação de venda de Treasuries adotada há seis anos e passou a recomendar a compra dos títulos de curto prazo. A casa avalia que o mercado exagerou nas apostas de novas altas do Fed, que até a véspera do dado de inflação somavam ao menos três em 12 meses. “Agora, os rendimentos se ajustaram em direção à nossa visão de longa data de juros mais altos, e queremos garantir uma renda atrativa”, escreveu a equipe.
Marina Valentini, estrategista de mercados globais da JPMorgan Asset, espera apenas mais uma alta, em dezembro. “Achamos que o pior já passou para a alta de juros e de yields, e na frente vemos uma moderação”, disse ao InfoMoney na semana passada. O Deutsche Bank ia na mesma linha. Em relatório publicado na véspera do dado, o banco observava que a inflação americana vinha surpreendendo para baixo e projetava duas altas do Fed, menos do que o mercado precificava. O CPI desta quarta contrariou essa aposta.
Para o bilionário Ray Dalio, fundador da Bridgewater, os EUA entraram em uma espiral em que a oferta crescente de títulos eleva os juros e obriga o governo a emitir ainda mais. Ao mesmo tempo, compradores tradicionais como China e Japão podem perder o apetite pela dívida americana. Para ele, a queda dos títulos ainda tem um longo caminho pela frente.
Entre as gestoras brasileiras, a Verde, de Luis Stuhlberger, descreve o cenário externo como mais “inóspito” em sua carta mensal mais recente. A gestora atribui a alta dos juros longos ao petróleo, ao populismo fiscal nas economias desenvolvidas, ao aperto do Fed e à demanda sem precedentes por capital para financiar a IA. “Começamos a ver algumas rachaduras na fachada do complexo de risco global. A principal dúvida hoje é qual o nível de taxa que provocará uma maior aversão ao risco”, escreve a casa.
No Brasil, o curto prazo ainda depende da eleição, e a recomendação é não transformar a carteira em aposta. Em seu relatório de outubro, a XP aumentou de forma moderada o risco das carteiras. A casa reduziu os pós-fixados, que acompanham o CDI, e ampliou os prefixados e, nas carteiras moderada e sofisticada, as ações brasileiras, sem abrir mão da diversificação. Para quem quiser surfar o cenário eleitoral, a Privatto Multi Family Office sugere limitar a aposta a 3% da carteira para conservadores, 5% para moderados e 7% para arrojados, de preferência em ETFs que replicam o Ibovespa.


