A oito dias do segundo turno, a entrevista de Roberta Luchsinger à CNN ofereceu à campanha de Flávio Bolsonaro (PL) munição pesada contra Lula (PT) na reta final da campanha. Durante uma hora, a lobista fez acusações, insinuações e ataques pessoais ao presidente, chamado de senil, esclerosado e machista.
A cena lembra um dos episódios mais controversos da eleição de 1989, quando Fernando Collor levou Miriam Cordeiro, mãe de Lurian, à televisão para atacar o adversário. Mas, desta vez, há uma diferença importante: o espaço era uma entrevista jornalística, não a propaganda eleitoral do concorrente.
Em 12 de dezembro de 1989, cinco dias antes da votação, Miriam Cordeiro acusou Lula de lhe oferecer dinheiro para abortar a gravidez da qual nasceria a filha dos dois. Também disse que o então candidato era racista. O depoimento ganhou repercussão no noticiário e atingiu a campanha petista quando Lula se aproximava de Collor nas pesquisas.
Luchsinger procurou desfazer a separação entre Lula e os negócios do filho. Sugeriu que o presidente não poderia desconhecer as atividades de Lulinha e relatou encontros do filho do presidente com ministros, ao mencionar inclusive uma viagem à casa de Camilo Santana, hoje coordenador da campanha petista, no Ceará. Também insinuou favorecimento a uma construtora comandada por um vizinho do filho do presidente.
A empresária afirmou ainda não ter cometido nenhum crime, mas anunciou que pretende colaborar com a Justiça em uma delação premiada, ameaçando não poupar Lula nem Lulinha. A lógica desse instrumento é a concessão de benefícios a alguém que revela sua participação em crimes e ajuda a esclarecer a atuação de outros envolvidos. Mas, se ela sustenta que nada fez de ilegal, o que pretende confessar para obter um prêmio? Essa pergunta não lhe foi feita.
Os adjetivos usados por Luchsinger também têm utilidade eleitoral. Ao chamar Lula de senil e esclerosado, ela reforçou a mensagem de que o presidente está velho demais para continuar governando. A afirmação de que um homem como ele não pode permanecer na Presidência deixou explícito o sentido político de sua intervenção.
A acusação de machismo e as referências às filhas dela acrescentaram outro componente. Ao responsabilizar antecipadamente Lula pelo que pudesse acontecer a ela ou às filhas, Luchsinger associou o presidente à imagem de uma ameaça à sua família. O relato pode sensibilizar especialmente o público feminino, segmento em que Flávio enfrenta maior resistência.
O momento é especialmente delicado para Lula. O petista vem demonstrando recuperação nas pesquisas e havia conseguido deslocar parte da discussão eleitoral para propostas, entregas do governo e temas da vida cotidiana. Reabrir o caso Lulinha favorece o esforço bolsonarista para interromper esse movimento e colocar novamente o petista na posição de se explicar.


