O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrentam na reta final da disputa presidencial o desafio de mobilizar eleitores em Estados onde a eleição para governador terminou no primeiro turno, cenário historicamente ligado ao aumento da abstenção. Em 2026, 21 governadores foram escolhidos na primeira rodada, recorde desde a redemocratização, incluindo São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, que concentram cerca de 84% do eleitorado brasileiro.
Mais de 33 milhões de brasileiros não compareceram às urnas no primeiro turno, o maior número absoluto de ausentes em uma eleição geral. O contingente ganha relevância diante da diferença de 1,87 ponto porcentual entre os candidatos: Flávio terminou com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.
Levantamento com eleições presidenciais desde 2002 mostra que, considerando o mesmo peso para cada Estado, a abstenção média nas unidades que já haviam escolhido governador subiu de 19,1% no primeiro turno para 22,4% no segundo, aumento de 3,4 pontos porcentuais. Em 2002, a alta foi de 6,1 pontos, de 20% para 26,1%.
Lula se reuniu em Brasília com os governadores reeleitos Jerônimo Rodrigues, da Bahia, Elmano de Freitas, do Ceará, e Rafael Fonteles, do Piauí, para discutir formas de ampliar a mobilização. Juntos, os três Estados registraram cerca de 3,8 milhões de eleitores ausentes no primeiro turno. A líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), afirma que a prioridade é ampliar a votação de Lula no Nordeste e levar às urnas parte dos eleitores que não compareceram.
O cientista político Antonio Lavareda avalia que a abstenção atingiu proporcionalmente mais eleitores potenciais de Lula, especialmente entre as parcelas de menor renda. Segundo ele, o menor comparecimento pode ter custado ao presidente ao menos cinco pontos porcentuais. “Uma das chaves para Lula virar está no eleitorado que deixou de votar”, diz.
O fim das disputas estaduais também pode favorecer os candidatos que contam com governadores aliados. Segundo o professor do Insper Leandro Cosentino, após garantir um mandato de quatro anos, o governador pode direcionar sua estrutura política à corrida presidencial. Em Minas Gerais, em 2022, Romeu Zema (Novo) foi reeleito no primeiro turno e passou a apoiar Jair Bolsonaro. Entre as duas rodadas, Bolsonaro ampliou sua votação no Estado de 43,6% para 49,8%, enquanto a vantagem de Lula caiu de 4,7 para 0,4 ponto porcentual.
Flávio aposta na mobilização de lideranças já eleitas. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), afirma que a orientação é aproveitar essas estruturas para ampliar a votação do senador e reduzir a abstenção. São Paulo e Minas Gerais, onde Flávio venceu no primeiro turno, estão no centro da estratégia. A campanha espera que Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito em São Paulo, intensifique sua participação em agendas no Estado e em viagens a outras regiões. Em Minas, a aposta é na atuação do governador eleito Cleitinho (Republicanos) e do deputado Nikolas Ferreira (PL).
Além do encerramento das disputas estaduais, cientistas políticos apontam outros fatores para a abstenção, como o desgaste com a política, o menor envolvimento nas campanhas, a facilidade para justificar a ausência ou pagar multa eleitoral e o cansaço após eleições marcadas pela polarização. “Quem conseguir engajar mais o eleitorado, sobretudo onde a eleição para governador já foi resolvida no primeiro turno, ganhará a disputa”, resume Lavareda.

