Pesquisa divulgada no sábado pelo Ipespe/Abrapel revela a dificuldade de Lula e de seus apoiadores para conquistar parte do eleitorado jovem, enquanto manifestações em diferentes cidades brasileiras levaram universitários às ruas em defesa do presidente e contra Flávio Bolsonaro. O contraste mostra que não existe uma juventude politicamente homogênea.
Em conversas com jovens que se identificam com a direita, uma palavra aparece com frequência: mudança. Alguns conhecem Flávio Bolsonaro e demonstram disposição para apoiá-lo, mas nem sempre apresentam identificação consistente com sua trajetória política ou com um programa de governo. O que parece mobilizá-los é a expectativa de romper com o presente.
Um desses jovens resumiu sua disposição de maneira inquietante: se o país piorar, “parte pra guerra civil, porque pior não fica”. A frase não pode ser tomada como representativa de uma geração inteira, mas expressa percepção de que a situação atual chegou a um limite e de que uma ruptura, mesmo com consequências imprevisíveis, poderia ser aceitável.
É nesse contexto que surge a expressão “geração cansada”. Para muitos, a resposta está na dificuldade de conquistar independência financeira, no trabalho precário, na insegurança sobre o futuro e na distância entre as promessas de sucesso e as oportunidades concretas. A sensação de que é preciso estudar, trabalhar, empreender e competir continuamente, sem garantia de ascensão social, pode alimentar frustração e descrença.
Parte dos jovens acredita no empreendedorismo e na meritocracia, vendo-se como responsável pelo próprio destino. Nessa visão, o fracasso também pode ser atribuído à falta de empenho, disciplina ou capacidade de cada um. Quando a valorização do esforço individual obscurece as condições sociais e econômicas que limitam as oportunidades, os problemas coletivos podem passar a ser vistos como falhas individuais.
Em algumas conversas, jovens atribuem ao governo atual uma responsabilidade que se estenderia por 16 anos, reunindo diferentes administrações e conjunturas políticas em uma única narrativa. Para alguns, a direita aparece como alternativa porque promete não apenas mudar o governo, mas romper com aquilo que identificam como um sistema incapaz de oferecer respostas.
Quem nasceu nos anos 2000 não viveu a ditadura militar, a mobilização pelas Diretas Já ou os primeiros anos da redemocratização. A ausência de memória vivida torna mais importante a maneira como o passado é transmitido pela escola, pela família, pelos meios de comunicação e pelas redes sociais. Quando essa transmissão falha, a democracia passa a ser percebida menos como conquista histórica e mais como estrutura que, quando decepciona, pode ser descartada.
Uma pesquisa realizada pelo Grupo Opinião Pública da UFMG e pelo Ipespe durante a eleição presidencial de 2010, em Belo Horizonte, já apontava sinais de enfraquecimento do associativismo, pouco interesse pela política, insatisfação com a representação e apoio à obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas. O desinteresse pela política e a busca por alternativas não convencionais já faziam parte das preocupações dos jovens pesquisados.


