Richard Nixon conduziu uma campanha sustentada para intimidar e punir jornalistas, com escutas telefônicas, processos e retaliações contra veículos e repórteres, remodelando a relação entre a presidência e a imprensa nos Estados Unidos. A estratégia, anterior à era Trump, incluiu ações que foram consideradas inconstitucionais pela Justiça.
A relação entre presidentes e imprensa é inerentemente adversarial, mas nenhum ocupante da Casa Branca antes de Donald Trump teve um histórico tão conflituoso quanto Nixon, segundo análise publicada nesta quinta-feira (1º). Desde o início do século 20, presidentes tentam usar jornalistas para disseminar suas ideias, enquanto repórteres buscam oferecer um relato mais completo dos fatos.
Nixon assumiu o poder em 1969 em um ambiente já marcado pela Guerra do Vietnã e pelo descrédito do governo Lyndon Johnson. O âncora Walter Cronkite classificou a campanha antiprensa de Nixon como “uma grande conspiração”, e o editor do Washington Post, Ben Bradlee, afirmou que a Primeira Emenda estava em perigo. Um relatório do National Press Club acusou o governo de um esforço sem precedentes para controlar informações.
Uma das primeiras ações foi o plano, elaborado com o conselheiro de Segurança Nacional Henry Kissinger, de grampear telefones de jornalistas que criticavam o governo. Na casa do colunista Joseph Kraft, em Georgetown, um funcionário da Casa Branca subiu em um poste para instalar um transmissor que gravava conversas. As escutas, feitas sem mandado, foram consideradas inconstitucionais.
Em 1971, após a publicação dos Pentagon Papers pelo New York Times, Nixon ordenou que o procurador-geral processasse o jornal para impedir a divulgação de documentos classificados. Foi a primeira tentativa de censura prévia da história americana, rejeitada pela Suprema Corte. O vazamento também levou à criação do grupo conhecido como Encanadores, responsável por invasões no complexo Watergate.
Nixon usou o poder do Executivo para punir veículos considerados hostis. A Washington Post Company, que investigava o escândalo Watergate, enfrentou desafios à renovação de licenças de duas emissoras de TV na Flórida. O presidente disse a assessores que o jornal teria “problemas danados” e que o jogo precisava ser jogado “com muita dureza”.
Repórteres individuais também sofreram retaliações. Martin Schram, do Newsday, foi excluído da viagem histórica à China em 1972. Daniel Schorr, da CBS, passou por investigação do FBI após reportagem sobre escolas católicas. Nixon pedia que a Receita Federal auditasse jornalistas críticos, e houve até um plano para assassinar o colunista Jack Anderson, arquivado por assessores mais moderados.
A guerra de Nixon contra a mídia fracassou: os tribunais rejeitaram a censura, o Congresso expôs operações ilegais e Watergate demonstrou o valor do jornalismo investigativo. O caso, porém, aumentou a propensão dos jornalistas a desconfiar do poder e adotar postura confrontacional.

