Pesquisadores descreveram uma nova espécie de peixe-nuvem endêmico da Amazônia, encontrada no sul do Amapá, que já pode estar ameaçada de extinção. Batizado de Laimosemion laranja, o peixe de até 2,7 centímetros vive em poças d’água e igarapés rasos temporários, e sofre com o avanço do garimpo e a expansão urbana na região.
A descoberta foi descrita em artigo publicado em agosto na revista Zoosystematics and Evolution. O estudo envolveu pesquisadores da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), da UFPA (Universidade Federal do Pará), do Instituto Peixe das Nuvens e da Universidade do Oeste da Flórida.
Os espécimes foram coletados em expedição realizada em 2024, em corpos d’água que integram o rio Cajari, afluente do rio Amazonas no sul amapaense. O nome da espécie faz referência à coloração alaranjada e ao município de Laranjal do Jari, onde um dos exemplares foi encontrado.
A região sofre com degradação intensa e avanço do garimpo, principalmente em áreas de entorno da Resex (Reserva Extrativista) do rio Cajari, entre os municípios de Laranjal do Jari e Almeirim. Em uma das localidades, os espécimes foram coletados em poças criadas a partir de antigas atividades de garimpo, com água avermelhada e grande quantidade de partículas em suspensão, afirmam os autores.
“Tive algumas conversas com agentes fiscais do Ibama que contaram que em Laranjal do Jari a situação é bem complicada porque é muito intensa a atividade garimpeira. Nós só percebemos isso durante a escrita do artigo ao olhar as imagens de satélite”, diz Yuri Abrantes, doutorando da UFRN e primeiro autor da pesquisa. Nas outras duas localidades, a expansão urbana e o lixo plástico também ameaçam as populações de peixes.
Análises genéticas confirmaram as diferenças da nova espécie em relação às demais do gênero na bacia Amazônica. Os resultados sugerem que L. laranja está distante geneticamente 5,3% das populações analisadas de L. agilae e L. strigatus, e 9,2% da L. dibaphus. Os padrões anatômicos também diferem: o peixe possui oito fileiras transversais de escamas e 28 vértebras, contra 30 ou 31 em L. strigatus.
Os cientistas pretendem estudar as características biológicas da nova espécie para saber se ela apresenta ciclo de vida anual ou não anual. Alguns parentes próximos têm ciclos anuais, em que os adultos morrem na seca, mas os ovos permanecem enterrados no substrato até a volta das chuvas.


