Eduardo Paes (PSD) sofreu nova derrota na disputa pelo governo do Rio e ficou pelo caminho ainda no primeiro turno, vencendo em apenas 13 dos 92 municípios. Com 50,88% dos votos válidos após retotalização, Douglas Ruas (PL) foi eleito governador. O resultado escancara a dificuldade histórica de prefeitos da capital em conquistar o Palácio Guanabara.
O carioca nunca havia concorrido ao governo em situação tão favorável. Vinha de mandatos bem avaliados, o PL de Douglas Ruas acumulava desgastes e o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto, estava como governador interino, o que deixou o partido do adversário sem a máquina. Mesmo assim, sofreu o revés ainda no primeiro turno.
Na Região Metropolitana, extremamente adensada e fundamental para o desempenho de qualquer candidato, Paes só venceu em Niterói, além da própria capital. A eventual vitória não seria nada trivial. Além do desafio de minar a força do bolsonarismo em uma eleição casada com a nacional, deparava-se com um obstáculo histórico.
O único prefeito a conseguir o feito foi Marcello Alencar, em 1994, mas em circunstâncias específicas. Ele já tinha completado o mandato na prefeitura e migrado do PDT de Leonel Brizola, com quem rompeu, para o PSDB de Fernando Henrique Cardoso, que estava embalado pelo Plano Real. O adversário era de seu antigo partido, Anthony Garotinho.
Padrinho político de Eduardo Paes na década de 90, Cesar Maia também não conseguiu chegar ao governo depois da experiência municipal. Em 1998, após finalizar dois anos antes um mandato na capital, Maia perdeu no segundo turno para Garotinho, já mais consolidado do que na disputa anterior. O ex-prefeito de Campos, a maior cidade do interior, venceu em quase todos os municípios.
Neste ano, nem mesmo o apoio de dez dos 13 prefeitos da Baixada Fluminense fizeram Eduardo Paes ganhar em algum desses locais. Douglas Ruas venceu em todos. Em 2018, contra Witzel, o carioca foi varrido no segundo turno com 19 pontos de diferença, mas conseguiu ganhar na capital, enquanto municípios da Baixada lhe impuseram derrotas com até metade dos votos do adversário.
A maioria dos pesquisadores e políticos atribui o movimento de fusão entre o antigo Rio e a Guanabara, em 1975, à tentativa de neutralizar a força política do PMDB, único partido legalizado de oposição ao regime, que tinha na Guanabara uma importante base. Dois entes de culturas políticas distintas acabaram unidos, com reflexos até hoje.
O ressentimento mútuo entre as partes permanece, afirma a historiadora Marly Motta, professora aposentada da FGV CPDOC e notória pesquisadora do tema. Não é mero acaso, afirma, que o show da Madonna em Copacabana tenha aparecido na campanha de Douglas Ruas, político de São Gonçalo, como símbolo do perfil carioca de Eduardo Paes. Apesar de Paes ainda não ter conversado a fundo sobre isso, aliados indicam que é muito improvável ele encarar, no futuro, outra disputa pelo Palácio Guanabara.


