A Assembleia Legislativa da Saxônia-Anhalt, na Alemanha, aprovou nesta quinta-feira (15) uma moção que exige o fim imediato de toda a ajuda financeira e militar alemã à Ucrânia. A proposta, apresentada em sessão extraordinária, foi apoiada pelos partidos Alternativa para a Alemanha (AfD), de ultradireita, e Aliança por Justiça Social e Racionalidade Econômica (BSW).
A moção não tem efeito prático imediato, já que os estados alemães não possuem competências em política externa. Mas a iniciativa foi duramente criticada pelos demais partidos no parlamento estadual. “Quem exige um cessar-fogo apenas da parte atacada não está pedindo paz, está pedindo a capitulação”, declarou Stefan Ruland (CDU), acusando AfD e BSW de “inverter os papéis de vítima e agressor”.
A sessão ocorreu em meio às negociações para a formação de um novo governo na Saxônia-Anhalt. A AfD venceu as eleições de setembro de 2026 com quase 44% dos votos, mas não alcançou a maioria absoluta no novo Parlamento estadual. O BSW, que conquistou pouco mais de 5% dos votos, é o único partido disposto a manter conversas oficiais com a AfD, cujo diretório estadual é classificado pelas autoridades de segurança como “comprovadamente extremista de direita”.
Para o cientista político Armin Pfahl-Traughber, da Escola Federal de Administração Pública da Alemanha, o que une as duas legendas é a “rejeição à elite política, a postura pró-Putin e a crítica ao apoio alemão à Ucrânia”. O historiador Ilko-Sascha Kowalczuk vai além e afirma que o BSW “nunca foi de esquerda; sempre foi reacionário”. Segundo ele, os dois partidos “servem como porta-vozes do Kremlin” e buscam uma “reestruturação estatal antidemocrática, rumo a um modelo autoritário”.
A aproximação entre AfD e BSW ficou evidente em um jantar no início de outubro, organizado pelo editor-chefe da revista de ultradireita Compact, Jürgen Elsässer, que defende a criação de uma “frente transversal” para unir os extremos à direita e à esquerda. Pfahl-Traughber, porém, questiona o conceito. “Tenho dúvidas se o BSW ainda pode ser classificado, de fato, como parte da esquerda política”, disse.
Kowalczuk alerta que a perda de solidariedade com a Ucrânia vai avançar. “Por enquanto, a AfD e o BSW ainda estão isolados, mas, com essa postura, eles conquistam amplos setores da sociedade, especialmente no leste do país”, afirmou, prevendo que o movimento atingirá também parcelas maiores da CDU e do SPD.


