O ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União Brasil), preso preventivamente pela Polícia Federal na quinta-feira (15), teve o programa Barricada Zero citado em relatório da PF que aponta possíveis relações dele com o Comando Vermelho. O documento menciona um áudio em que um capitão da PM conversa com um chefe da facção sobre a retirada de barricadas na cidade.
Na gravação, divulgada no início do ano, o capitão Alessander Ribeiro Estrella Rosa conversa com José Severino da Silva Júnior, conhecido como Soró ou Jetta, chefe do CV no município. Soró afirma ter retirado barricadas das comunidades Castelar e Rola Bosta, mas reclama da continuidade das operações policiais. O policial responde: “Quem organiza isso tudo sou eu. Quem fica na prefeitura [de Belford Roxo], no Batalhão, sou eu”.
Segundo os investigadores, o capitão atuava como interlocutor dos interesses da gestão de Canella, garantindo a realização de obras públicas em áreas conflagradas e a posterior exploração político-eleitoral e midiática dessas iniciativas pela administração municipal.
Nas semanas que antecederam as eleições de 4 de outubro, Canella voltou a usar o programa para promover sua gestão. Em publicação de 2 de outubro, afirmou que motoristas de aplicativo, taxistas e mototaxistas já podiam trabalhar com “tranquilidade, segurança e liberdade” porque não havia mais barricadas bloqueando as ruas de Belford Roxo. Na mesma mensagem, pediu votos para si e para Rueda, eleito deputado federal.
Canella foi preso na oitava fase da Operação Unha e Carne, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF. A investigação apura suposta organização criminosa que teria usado uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio para lavar dinheiro. O esquema teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos, segundo relatório do Coaf.
O ex-prefeito é apontado como principal articulador político do grupo, suspeito de estabelecer conexões entre o poder público, a rede de postos e grupos armados. A operação também levou à prisão do ex-chefe da Polícia Civil Marcus Amim e de quatro policiais civis. Em julho, Canella já havia sido alvo de buscas e foi preso em flagrante após a apreensão de um fuzil em seu carro. Ele foi solto dias depois e passou a usar tornozeleira eletrônica.
Por meio de sua advogada, Sheila Lustoza, Canella afirmou que “confia em Deus, na Justiça e tem certeza de que tudo será esclarecido”.

