Cem dias após os dois terremotos que devastaram a Venezuela, o país ainda convive com a dor das perdas e o desafio da reconstrução. A tragédia deixou mais de 6 mil mortos, dezenas de milhares de feridos e uma parcela considerável da população afetada, em um cenário que já era crítico devido a crises humanitárias.
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), que atua no país desde o início da crise, prestou assistência aos hospitais que receberam milhares de feridos e distribuiu 8,5 toneladas de suprimentos na fase inicial da resposta. Em cem dias, foram realizadas mais de 7 mil consultas, especialmente para casos de dores musculares e ósseas, infecções e doenças de pele.
Os profissionais também se viram diante de pessoas traumatizadas e com medo dos choques secundários. “O que observamos hoje não é apenas o efeito de um evento traumático isolado, mas o impacto acumulado de viver durante meses em condições de incerteza”, disse Milagritos Valderrama, coordenadora médica de MSF para a resposta à emergência.
Elvira, de 76 anos, relatou à organização que estava em um prédio que desabou. “Fiquei sob os escombros e pensaram que eu estava morta quando me tiraram de lá. Só lembro que estava correndo e caímos com força, no abismo”, contou, em atendimento psicológico. “Cheguei aqui em estado de crise. O que eu vivi não é fácil. Tudo me assustava, eu chorava muito, não dormia.”
Ashley Mayora, de 43 anos, vive em uma barraca em Mare Abajo, um conjunto habitacional que desabou parcialmente. “Isso me desmoralizou. Foi um desastre natural, mas destruiu tudo, meu coração, minha mente e minha alma”, explicou. Ela teve um pré-infarto no dia 29 de julho, cerca de um mês depois dos tremores, e precisou se afastar da filha e do neto recém-nascido. “Só estou viva por eles.”
Rosmari Colmenares, que perdeu a casa, mencionou a dor da incerteza: até hoje não teve informações sobre seu irmão e seu sobrinho, que estavam em um prédio que desabou. O corpo de sua sobrinha foi encontrado pelos resgatistas. “Eu vi o jeito que demoliram minha casa; meu filho me abraçou e nós choramos. Tantos anos de dedicação para construí-la, melhorá-la… Em segundos, essa parte de você e da sua família é destruída.”
De acordo com as Nações Unidas, mais de 2 mil resgatistas vindos de 27 países trabalharam nos escombros das cidades venezuelanas, desde nações vizinhas, como Brasil e Argentina, até lugares distantes, como a Índia. Israel Lanza, socorrista da Defesa Civil, compartilhou: “Minha esperança era encontrar pessoas com vida, mas o que encontrei foram corpos. O que mais me marcou foi encontrarmos o corpo de um cachorro, abraçado por uma senhora e seu filho. Os braços deles estavam ao redor do animal, e todos morreram.”
O MSF segue oferecendo serviços de primeiro atendimento e saúde mental à população em Caracas e La Guaira, e atua na prevenção de doenças por meio de ações para o fornecimento de água potável e instalação de infraestrutura essencial de saneamento.

