A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no 1º turno das eleições presidenciais, somada à maioria conservadora no Congresso, reforça o Brasil como peça central no xadrez geopolítico da América Latina, avaliam think tanks internacionais. O país caminharia para a órbita dos EUA, de Donald Trump, e se afastaria da China, ao menos no campo político.
A avaliação é de instituições como Chatham House, Brookings e Council on Foreign Relations (CFR), que observam a política latino-americana. Para Christopher Sabatini, diretor do Programa América Latina da Chatham House, a presidência de Flávio Bolsonaro traria uma reviravolta nas agendas de política externa focadas no PT.
“Isso desencadearia, se não uma retirada, ao menos um papel significativamente reduzido no grupo BRICS, que Trump criticou por ‘políticas antiamericanas’”, disse Sabatini. Desde 2024, o bloco agregou países como o Irã e passou a defender pautas de conflito com os EUA, como a desdolarização nas relações comerciais.
O especialista também citou o risco de o Brasil se afastar de fóruns globais como a ONU, o G20 e a COP, “onde Brasília reivindicou sua posição como representante do Sul Global”. Ele reconheceu, porém, que o histórico do Brasil em apoiar o multilateralismo tem sido irregular sob o PT.
Sabatini afirmou que não está claro que um novo governo Bolsonaro representaria um triunfo para a chamada “Doutrina Monroe” de Trump. “Embora um Brasil liderado por Bolsonaro retornasse Brasília às batalhas culturais anti-woke de seu pai, isso não necessariamente se alinharia com a Casa Branca de Trump, especialmente no comércio”, disse.
Para a Brookings, uma vitória de Flávio Bolsonaro seria um grande triunfo para Trump, que “se intrometeu repetidamente nessa luta”. O think tank lembra que, desde julho de 2025, os EUA impuseram tarifas pesadas sobre exportações brasileiras, em retaliação à suposta “caça às bruxas” do judiciário contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
“O Brasil, a maior potência da América Latina, representa o grande prêmio em uma sequência constante de aliados de direita que chegam ao poder na região”, lista a Brookings. O think tank diz que Flávio teria uma dívida com Trump por ajudá-lo a argumentar que sua abordagem “mano dura” contra o crime organizado conquistaria o favor de Washington.
O CFR destaca que Lula e Flávio Bolsonaro apresentam visões diferentes para a política externa. Se Flávio vencer, o Brasil poderá buscar participar da iniciativa de segurança regional Escudo das Américas, à qual Lula se recusou a aderir. A China, porém, é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, o que impõe limites a qualquer esforço de privilegiar Washington às custas de Pequim.


