O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, apenas sorriu e permaneceu em silêncio nesta sexta-feira (16) ao ser perguntado se seu homólogo americano, Donald Trump, o usa como “bode expiatório” para os problemas internos dos Estados Unidos, às vésperas das eleições legislativas de novembro. A reação ocorreu em Bruxelas, onde o líder ucraniano participa de uma cúpula com líderes europeus.
Horas antes, Trump havia classificado a retomada de ataques ucranianos a refinarias da Rússia como “uma desgraça” e dito que Zelensky é “mais difícil de lidar” do que o presidente russo, Vladimir Putin. “Esta é a minha resposta”, afirmou Zelensky, com um sorriso, ao ser questionado por um jornalista sobre o assunto.
Em Bruxelas, o ucraniano voltou a pedir ajuda financeira da Europa para conter a Rússia, estimando uma necessidade em torno de R$ 400 bilhões. “Sou muito grato pelo enorme apoio que recebemos do Conselho da União Europeia, da Comissão Europeia e dos líderes, líderes de verdade, que têm estado ao nosso lado desde o início desta guerra”, disse. “É claro que queremos encerrar esta guerra o mais rápido possível, [mas] no momento, não vemos sinais, por parte da Rússia, de que eles estejam prontos para isso.”
A reunião de cúpula ocorre um dia depois de a Ucrânia retomar ataques contra instalações de energia da Rússia, rompendo com o acordo anunciado por Trump no domingo, que previa uma trégua nos ataques diretos ao setor energético. Passados três dias do anúncio, Kiev denunciou a continuidade de bombardeios direcionados por parte de Moscou, que nunca confirmou ter concordado com a suspensão das ações ofensivas.
“Tudo o que ele está fazendo é aumentar o preço global de combustíveis. Eu acho isso uma desgraça”, afirmou Trump em entrevista na noite de quinta-feira à rede americana Newsmax. “Há muitos alvos que você pode acertar, mas quando você mira em refinarias de diesel (…) que o mundo precisa, você não faz um bom serviço para o mundo.”
Analistas apontaram que as medidas anunciadas por Trump no fim de semana — além do acordo de não-agressão energética, o presidente americano também disse ter alcançado um acordo com Putin para liberar a venda de diesel russo ao mercado internacional — visavam atender a uma demanda interna por combustível barato nos EUA antes das eleições de meio de mandato. O acordo sobre o diesel foi criticado por aliados europeus, que consideraram uma posição pró-Rússia, permitindo a Moscou um alívio financeiro, ignorando as sanções pela violação territorial da Ucrânia.
“Não é momento de retirar nosso apoio à Ucrânia. Não é momento de aliviar as sanções contra a Rússia”, disse o presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, ao receber Zelensky em Bruxelas. A chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, avaliou o Starlink como “realmente necessário para a Ucrânia” e admitiu que a Europa não tem capacidade para “substituir esse sistema a curto prazo”.
Zelensky voltou a pedir ajuda financeira aos aliados europeus — desta vez, no valor de 70 bilhões de euros (cerca de R$ 400 bilhões no câmbio atual) adicionais, para financiar a resistência militar. “É uma cifra realista. E peço a vocês que busquem esse apoio. Isso nos ajudará a conter a Rússia”, disse. Os líderes europeus reconheceram que o apoio financeiro e militar à Ucrânia está garantido até 2026, mas que o financiamento previsto para 2027 está coberto apenas parcialmente. A União Europeia aprovou um empréstimo de 90 bilhões de euros para o período 2026-2027, dos quais cerca de 45 bilhões são destinados ao próximo ano.

