A saúde mental se tornou um assunto comum em conversas informais, como as de bar. Termos como “gatilho”, “trauma”, “limites” e “responsabilidade afetiva” estão sendo usados com frequência entre amigos, refletindo uma mudança nas dinâmicas sociais.
Jair Soares dos Santos, psicólogo e fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas (IBFT), analisa esse fenômeno. Ele destaca que a popularização da terapia ajuda a reduzir estigmas e amplia o acesso a uma linguagem emocional que antes era elitizada. ‘A popularização da terapia traz um ganho enorme: aproxima as pessoas de recursos de cuidado interno e oferece linguagem emocional acessível’, afirma.
No entanto, essa transformação da saúde mental em tendência pode levar a distorções. Quando o sofrimento é tratado como um produto cultural, conceitos clínicos importantes podem ser esvaziados. ‘A terapia não é uma estética, é um compromisso com transformação profunda’, explica Jair.
A Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG) observa que a ‘performance emocional’ pode ser perigosa. Falar sobre dor sem realmente processá-la pode criar uma falsa sensação de cura. ‘Falar e elaborar são coisas bem diferentes’, ressalta o psicólogo.
As mudanças nos códigos sociais também influenciam essa abertura nas conversas. Em ambientes informais, a sensação de horizontalidade faz com que as pessoas se sintam à vontade para compartilhar. ‘A revelação não surge pela busca de cura, mas pela busca de pertencimento. A fragilidade cria vínculo’, explica Jair.
Apesar de a conversa conectar as pessoas, ela não substitui o trabalho terapêutico. ‘Conversar conecta, mas a terapia transforma’, afirma o especialista.
O autocuidado, por sua vez, é frequentemente romantizado. Jair alerta que cuidar de si pode envolver desconforto, como revisitar memórias e estabelecer limites dolorosos. ‘Evitar o que dói não é cuidado, é anestesia’, diz.
Outro fenômeno é a transformação da vida emocional em conteúdo nas redes sociais. Desabafos se tornam posts e vídeos, e isso pode levar à cristalização do papel de vítima. ‘Não é a audiência que cura, mas sim o contato íntimo consigo mesmo’, conclui Jair.


