Jo van Gogh-Bonger, cunhada de Vincent van Gogh, foi peça-chave tanto na crise emocional que levou o pintor a cortar a própria orelha e a cometer suicídio quanto na consagração póstuma de sua obra. Diários e cartas dela, revelados recentemente pelo Museu Van Gogh, em Amsterdã, mostram que ela dedicou 30 anos para transformar o cunhado em um dos artistas mais famosos do mundo.
Van Gogh pintou A Noite Estrelada em junho de 1889, durante um ano em que ficou internado em um asilo no sul da França. A obra não retrata um lugar real, mas uma composição de elementos que ele viu em diferentes momentos — uma vila, o céu estrelado, a lua, colinas escuras e um cipreste. “A visão das estrelas sempre me faz sonhar”, disse o pintor.
O ato mais infame de automutilação de Van Gogh, quando cortou a própria orelha, aconteceu no mesmo dia em que ele provavelmente recebeu a notícia do noivado de Theo, seu irmão, com Jo. Especialistas, incluindo Martin Bailey, suspeitam que a notícia tenha despertado no pintor um medo incontrolável de ser abandonado pelo irmão.
Van Gogh se matou em julho de 1890, aos 37 anos, dias depois de uma visita estressante a Theo e Jo em Paris. O irmão pensava em deixar o emprego para abrir o próprio negócio, o que significaria ficar sem renda por um tempo. O casal, que já tinha um filho batizado com o nome do pintor, queria alugar um apartamento melhor, mas o orçamento estava apertado. Van Gogh saiu correndo do apartamento, convencido de que era um fardo que Theo não poderia mais carregar.
Seis meses depois, Theo morreu de sífilis. Jo ficou viúva, com um bebê, pouco dinheiro e uma herança incomum: mais de 400 pinturas de Van Gogh, que na época eram consideradas obras sem valor comercial. Ela não tinha formação em arte, mas acreditava no talento do cunhado e decidiu promover seu trabalho.
Jo organizou exposições, fez lobby com críticos e publicou, em 1914, as cartas de Van Gogh em uma edição de três volumes, hoje considerada uma das obras mais reveladoras da história da arte. Ela passou 30 anos promovendo o trabalho do cunhado na Holanda, Alemanha, França, Inglaterra e até nos Estados Unidos.
Curiosamente, nem Jo, nem Theo, nem o próprio Van Gogh consideravam A Noite Estrelada uma de suas melhores obras. O pintor nem sequer assinou o quadro — ele assinava apenas cerca de 16% de suas pinturas, geralmente quando estava satisfeito ou queria presentear alguém. Theo chamava a obra de “a vila ao luar” e criticou o irmão por carta: “sinto que a busca por estilo tira o sentimento real das coisas”. Van Gogh admitiu que o quadro carecia de caráter e reclamou das estrelas grandes demais.
Jo vendeu A Noite Estrelada cedo, mas a recomprou temporariamente para uma exposição em Amsterdã, em 1905, onde foi listada como número 199, com o nome De Sterren (As Estrelas). A obra mudou de mãos mais duas vezes até ser adquirida pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), em 1941, quando já tinha ganhado o nome pelo qual é conhecida hoje.

