O mercado livre de energia elétrica no Brasil enfrenta uma crise de liquidez que impacta a comercialização de energia. Essa situação é resultado de uma combinação de fatores que afetam a operação do Ambiente de Contratação Livre (ACL).
A premissa básica do setor de infraestrutura é que a energia gerada será comercializada a um preço previsível. No entanto, a falta de liquidez compromete essa premissa, resultando em produtos sem referência de preço e geradores incapazes de monetizar seus investimentos.
Desde a criação do ACL no início dos anos 2000, o mercado evoluiu, mas atualmente opera com liquidez reduzida. Um dos principais fatores é o risco de crédito, exacerbado pela ausência de um sistema de garantias centralizado. A situação se agravou em outubro de 2024, quando a Gold Energia, uma das maiores comercializadoras do país, revelou dificuldades financeiras, com uma dívida de R$ 188,8 milhões.
Outro fator que contribui para a crise é a escassez de oferta por parte dos geradores. Em 2025, os cortes forçados de geração renovável, conhecidos como “curtailment”, atingiram 20,6%, obrigando geradores a se tornarem compradores de energia para honrar contratos. Além disso, geradores hidráulicos têm optado por não ofertar energia no mercado futuro, o que pode elevar os preços de longo prazo e prejudicar a competição.
O modelo computacional que orienta o despacho de energia também tem suas falhas. O Operador Nacional do Sistema (ONS) utiliza modelos matemáticos para nortear suas decisões, mas a complexidade das mudanças recentes resultou em inconsistências no Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), que serve de referência para a precificação dos contratos futuros.
Esses três fatores — fragilidade do crédito, falta de oferta e volatilidade exógena — estão interligados e resultam em um mercado encolhido, onde consumidores ficam descontratados involuntariamente e novos projetos de geração perdem viabilidade financeira.
Para resolver a crise, é necessária uma ação coordenada. A criação de um sistema de garantias poderia eliminar o risco de crédito, enquanto um plano de expansão de geração e transmissão, aliado a mecanismos de flexibilidade, ajudaria a reduzir os cortes. A fiscalização pela ANEEL é essencial para garantir concorrência e aumentar a oferta de energia.
““Liquidez não é um detalhe operacional. É a condição de funcionamento de qualquer mercado.””

