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Frutas e legumes se transformam em couro vegetal comestível no Espírito Santo

Amanda Rocha
Última atualização: 5 de abril de 2026 04:01
Amanda Rocha
Tempo: 5 min.

Um projeto desenvolvido pelo Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), no campus de Venda Nova do Imigrante, está convertendo frutas que seriam descartadas em uma nova fonte de renda para agricultores familiares. A iniciativa ensina uma técnica de desidratação que transforma frutas e legumes maduros em lâminas finas e flexíveis, semelhantes a um ‘couro vegetal’ comestível.

O material produzido é isento de lactose, glúten e açúcar, podendo ser utilizado na produção de flores decorativas para bolos e eventos, além de outras aplicações gastronômicas. A técnica utiliza frutas que já passaram do ponto ideal de venda in natura, que normalmente não teriam valor comercial. Elas são higienizadas, transformadas em purê e espalhadas em camadas finas antes de serem desidratadas.

Após um período de desidratação que varia de 12 horas a um dia e meio, o resultado é uma lâmina maleável, pronta para corte e modelagem. ‘Sabe aquela fruta que geralmente o produtor fala que já não dá pra vender?! A gente pensa: ‘Faz alguma coisa com ela, bate um suco!’. Então, é essa fruta que iria ser desperdiçada, sem valor de venda, que volta a ser um produto através da desidratação’, explicou a coordenadora geral de Extensão e do Núcleo Incubador do Ifes, Zâmora Santos.

Durante seis meses, o grupo testou e analisou diferentes produtos, como pitaya, limão siciliano, goiaba, maracujá, tomate e café. As experiências resultaram na elaboração de uma cartilha com orientações técnicas para replicar o processo. No campus, dez produtores da agricultura familiar participaram de uma formação prática, recebendo conteúdo teórico, apostilas e kits com desidratadores.

A professora do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), Michele Nogueira, afirmou: ‘O nosso curso foi totalmente prático mesmo, mão na massa. Eles receberam o conteúdo teórico, uma apostila com todo o passo a passo, e fomos para dentro do laboratório iniciar a produção’. O projeto integra o InovaTech, iniciativa da incubadora do Ifes, e conta com apoio do Incaper, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes).

A produtora rural Vanuza Rosa Falqueto, que cultiva palmito, laranja, abacate, café e limão siciliano, relatou que parte da produção se perdia por falta de escala para venda. ‘A nossa produção aqui não é grande. Então, quando a gente ia vender para os atravessadores, eles necessitavam de uma quantidade maior. Muito produto acabava se perdendo aqui na propriedade’, disse Vanuza. Com a nova técnica, ela começou a transformar limão siciliano e palmito juçara em lâminas comestíveis.

Outra produtora, Maria Dalva Garcia Andrerão, está se capacitando para utilizar jabuticabas cultivadas na propriedade para criar as lâminas. ‘Nós estamos pensando em começar primeiro pelos enroladinhos, depois pela florzinhas. É algo que provavelmente iria para o lixo e a gente aproveita tudo, como banana, abacaxi, hortelã, limão, tudo coisas que a gente já tem no sítio’, contou Maria Dalva.

O extensionista do Incaper, Thiago Monteiro, destacou a sustentabilidade do projeto: ‘O viés de sustentabilidade desse curso está justamente na possibilidade de você fazer o uso de um produto que já não está apto para o consumo in natura, uma fruta que já passou um pouquinho do ponto para banca, o legume que já passou um pouquinho, pra agregar valor a ele.’

Após o encerramento das aulas, os produtores receberão acompanhamento técnico para definir preço, embalagem e estratégias de venda. A expectativa é que as lâminas comestíveis, que já deram origem a medalhões de pêssego e lasanha com lâmina de berinjela, passem a integrar o comércio local, ampliando as possibilidades de renda no campo e reduzindo o desperdício de alimentos.

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