Simulações do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ (Lasa/UFRJ) mostram que a fumaça que encobriu Manaus nas últimas semanas foi transportada por correntes de vento vindas do Pará. A análise, baseada em trajetórias de massas de ar entre os dias 10 e 15 de outubro, indica que a fuligem teve origem em queimadas a leste da capital amazonense.
Os ventos passaram exatamente pela área de maior concentração de queimadas ao sul de Santarém, onde fica a Floresta Nacional do Tapajós e cidades como São Benedito e São José. No Amazonas, os focos se concentram na Região Metropolitana de Manaus, em municípios como Itacoatiara, Autazes, Careiro e Careiro da Várzea.
Renata Libonati, coordenadora do Lasa, explicou que a análise buscou investigar a origem das massas de ar que alcançaram Manaus. “A distribuição espacial das trajetórias indica que as massas de ar que influenciaram Manaus podem ter percorrido áreas do Pará”, afirmou. Ela ressaltou que a combinação das trajetórias com informações sobre focos de incêndio sugere que as regiões a leste de Manaus tiveram elevado número de queimadas nos sete dias anteriores ao período analisado.
Desde o dia 10, 52,5% dos 3.644 focos de queimadas no Brasil ocorreram no Pará (1.188) e no Amazonas (726). Segundo o sistema Alarmes, do Lasa, a área queimada no Amazonas em setembro foi 38,8% maior que a média histórica, passando de 209.651 para 291.060 hectares. Em outubro, o aumento é de 249%: já são 220,7 mil hectares queimados, ante uma média histórica de 63,2 mil hectares para o mês inteiro.
Pesquisadores atribuem o aumento do fogo ao El Niño, que causa seca severa e ondas de calor no Norte. A pouca incidência de queimadas nos últimos dois anos deixou material combustível acumulado, como folhas secas, o que facilita a propagação dos incêndios.
Manaus registra a pior qualidade do ar entre as cidades monitoradas pela plataforma IQAir desde a semana passada. Na quinta-feira (8), a concentração de partículas finas PM2.5 chegou a 200 microgramas por metro cúbico às 22h, segundo a Defesa Civil municipal. O Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas, registrou pico de 344,5 µg/m³ às 2h de sexta-feira (9). A OMS recomenda limite de 15 µg/m³ na média de 24 horas.
O governo do Amazonas informou que a Operação Tamoiotatá, de combate às queimadas, começou em 23 de fevereiro de 2026 e abrange 13 municípios. Decretos estaduais de 9 de setembro proibiram o uso do fogo por 120 dias. Entre 1º de junho e 12 de outubro, o Corpo de Bombeiros contabilizou 3.575 ocorrências e atuou no combate a 21.766 focos, sendo 4.532 na capital.

